Mudança de gênero em crianças

Tenho visto tanto debate sobre a questão da identidade de gênero, que vou dar minha cara a tapa aqui… (Olha mercúrio retrógrado no trânsito se combinando com o mercúrio retrógrado no mapa natal e me jogando na fogueira!)

Já vou avisando que se a discussão engrossar eu amarelo e me calo. Não sou boa de briga…

meninos-e-meninas

Meu filho caçula, atualmente com 12 anos, me pediu pra explicar o que era isso de mudança de gênero, identidade de gênero, etc. Não estava entendendo essas discussões que pipocam por aí…

Abordei o assunto a partir das minhas convicções, e fui explicando que, na nossa sociedade (e em quase todas as sociedades atuais) homens e mulheres não podem as mesmas coisas. Existe uma crença consolidada de que algumas coisas são só de menino e outras só de menina. Ele me pediu exemplos, pois essas diferenças não estavam claras pra ele…

Acho que não preciso listar aqui todas as coisas que se atribuem exclusivamente a meninos ou a meninas em geral. Todo mundo conhece, né?

Eu tentei criar meus filhos livres ao máximo desses estereótipos. E pude fazer isso, em parte, por ser separada e o pai não morar junto.
Nunca quis criar polêmica ou levantar bandeira, então essas igualdades que promovi sempre permaneceram discretas. Como eu tenho uma menina e dois meninos de idades próximas, era mais fácil pra eles dividir os brinquedos sem ter que definir o que era de quem, ou o que seria permitido a um ou a outro em função do seu sexo…

Minha filha nunca conseguiu brincar direito de Poly, porque os meninos arrebentavam e perdiam as pecinhas minúsculas. Em compensação, ela fazia os irmãos, mais novos, de bonecas. Ela os vestia com seus vestidos mais coloridos, colocava pulseira, anel e presilhas nos cabelos. E eles adoravam!

Só agora, aos 12 anos, meu filho descobriu que isso seria considerado um absurdo pela maioria das pessoas. Que eu seria acusada pelos preconceituosos de estar transformando meus filhos em gays, por permitir que eles usassem roupas e enfeites “de menina”.

Meu filho hoje tem cabelos compridos, herdou um dos meus kaftans porque adora, usa um casaco de Pokemon com orelhas e rabinho, e sempre pôde brincar com bonecas e bichinhos de pelúcia fofinhos, entre tantas outras coisas “de menino” e “de menina”. Quando ele descobriu que poderia ter sido privado disso tudo caso tivesse nascido em outra família, sua reação foi me agradecer e me dar um beijo e um abraço.

Senti essa reação como a confirmação de que estou no caminho certo…

Essa introdução toda é pra dizer que sou contra o tratamento para mudança de gênero em crianças. Meu filho não precisa mudar de gênero para se sentir bem na própria pele. Ele pode  fazer o que ele quiser, usar a roupa que quiser, sem precisar trocar de gênero.

Claro que ele enfrenta preconceitos por aí. Nem todo mundo aceita essa igualdade da mesma forma que aceitamos em casa. Na escola, durante um tempo ele foi zoado pelos amigos por causa do cabelo comprido. O que aconteceu? Nada, o assunto morreu porque ele não dava a mínima pro que falavam. A educação que recebeu o ajuda a se sentir seguro em relação às suas escolhas.

Agora, digamos que eu, desde que ele é pequeno, o proibisse de fazer ou usar todas essas coisas que ele adora, porque são coisas de menina. É bem possível que ele resolvesse querer ser menina…

Acredito firmemente que o desejo de mudança de gênero surge, na grande maioria dos casos, porque existe na sociedade uma diferença de gênero.

Acabe-se com os preconceitos, acabe-se com os estereótipos de masculino e feminino, permita-se às crianças usarem a roupa que preferirem, brincarem com o que lhes aprouver, comportarem-se de maneira mais emotiva ou mais racional independentemente de seu sexo, e tenho certeza de que veremos uma queda radical na quantidade de crianças que não se identificam com o seu sexo de nascimento.

E aí, não será mais necessário tratar as crianças com hormônios – cheios de efeitos colaterais graves – para que elas assumam a aparência que a sociedade determina como feminina ou masculina.

Já virou um textão e não quero me estender ainda mais…

Só quero deixar claro que tenho consciência de que existe uma parcela menor de pessoas que realmente chegam à adolescência e à vida adulta sem se identificar com as características físicas de seu sexo de nascimento. Para essas, o tratamento de mudança de gênero precisa continuar existindo.

O que acho absurdo é que se considere mais adequado mudar hormonal e cirurgicamente crianças e adolescentes que não se encaixam nos padrões, do que mudar os preconceitos e aceitar cada um do seu jeitinho especial.

Aline Mendes

 

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