Crianças e Brócolis

Quem me conhece sabe que me orgulho de que meus filhos sejam meio ETs, como eu. Outro dia meu filho me deu uma aula de como a casa do vizinho, de telhado pontiagudo, era boa pra igrejas, que se conectam com o céu, mas que não era boa pra casa de morar. Quando perguntei onde ele tinha aprendido isso, ele respondeu que eu ensinei. Nem me lembrava! Mas ele aprendeu direitinho.

Foodscapes - Carl Warner

Hoje fomos com as crianças a um restaurante natural. Rafinha (7) comeu um prato de 450g em menos de 5 minutos. Foi o tempo que eu levei pra fazer meu prato e voltar, e ele já estava na última garfada. Acho que não era só fome.

Quando tínhamos a nossa casa, onde eu escolhia o cardápio e a maneira de preparar as comidas, ele era assim. Comia muito, rápido, com entusiasmo e apetite.

Aqui na casa da avó, onde estamos morando, as refeições são um parto. Tenho que ficar insistindo, enchendo o saco mesmo, pra ele comer um pratinho de nada.

Aí me lembrei que temos o paladar muito parecido, e que eu, quando pequena, quase não comia (a comida da casa da minha mãe). Quando cresci e descobri que havia comidas diferentes e maneiras diferentes de preparar a comida, foi que comecei a gostar de comer “comida de verdade”. Antes, eu odiava, tinha nojo, queria ser astronauta e me alimentar de pílulas. Minhas irmãs diziam que eu vivia de fotossíntese. Isso porque elas ainda não tinham ouvido falar em prana…

Eu gosto de saladas coloridas e bem variadas. Sempre que vejo o tal anúncio do menino pedindo brócolis no supermercado, me lembro dos meus filhos. Os dois maiores adoram brócolis. O caçula gosta de broto de alfafa.

Depois que me separei, meu ex-marido voltou a seguir uma dieta, digamos, não tão saudável. E se readaptou ao padrão de crianças que não gostam de legumes e verduras.

Um dia meu filho foi comer na casa da avó paterna e, quando o pai acabou de colocar a comida no seu prato, ele ficou revoltado por que o pai não tinha colocado vagem. Brigou, exigiu a vagem, e quando voltou pra casa veio me contar, indignado.

Ah, meus queridos ETs comedores de coisas verdes! Espero em breve poder voltar a oferecer comida de marciano pra vocês!

A qualquer hora volto aqui pra contar a terrível história do “verdinho” da minha infância…

O Monstro do Medo

Mães tem mesmo que ser muito criativas e multifacetadas. Hoje experimentei mais uma vez minha porção psicóloga, e usei técnicas de psicodrama (!) para ajudar minha filha a sair de casa.

Basta estar um pouco mais insegura ou com medo, e ela sente vontade de fazer xixi a cada cinco minutos. Isso às vezes interrompe viagens de carro, sessões de cinema, passeios no parque, etc. Normalmente acontece quando eu não estou junto.

Hoje, antes de sair com a avó pra passear na pracinha, ela já pediu a “homeopatia do pipi”, antecipando o medo. Tentei lembrá-la de que é só imaginação, que não tem xixi de verdade (ela sabe disso), que ela não deve deixar o medo tomar conta, mas nada estava adiantando, e ela acabou dizendo que não iria mais passear com a avó.

Ai, meu Deus! O que eu faço?

Não sei se por criatividade ou sopro do meu anjo da guarda (ou do dela), resolvi dar um corpo físico pro medo. Peguei o único bichinho de pelúcia ao alcance (perdido no meu quarto) e disse a ela pra fingir que aquele era o medo. Pobre tamanduá indefeso :)

- Finge que esse é o medo. Manda ele embora. Fala: sai medo, vai embora!

Ela repetiu, rindo, sem muita convicção, mas depois completou: – Mas esse não é o medo, é só um bichinho de pelúcia.

Ai, não funcionou! E agora? Numa fração de segundos, pensei que o Medo tinha que ser representado por algo mais convincente, mais ameaçador…

Nada em volta que pudesse servir. Nada mais assustador do que… EU.

Pus minha ultra mega rápida fantasia de monstro (o cabelo todo puxado pra frente cobrindo a cara inteira) e incorporei o medo.

dan dan dan dan (musiquinha do filme Tubarão)

Eu sou o medo! Eu vou te pegar! Não vou te deixar fazer nada! Eu mando em você!
E com voz mais fina: vai, meu amor, manda ele sair daqui, diz: você não manda em mim, vai embora! sai!

Dessa vez ela conseguiu! E quando o monstro do medo estava caído no chão, vencido, a voz da mãe disse a ela:
- Vai rápido com a vovó, vai! Antes que o monstro queira te pegar de novo.

Que felicidade ouvir os passinhos dela descendo as escadas correndo, e dizendo, leve e animada: me espera, vovó, eu já estou na porta!

E que coragem, admitir que às vezes a mãe pode ser a sombra mais assustadora na vida de uma filha!
Dizem que o papel tradicional da mãe é acolher, proteger, e o papel do pai é estimular, empurrar para o mundo. Mas as pães tem que fazer os dois.

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Vídeo: Criança, a Alma do Negócio

Um vídeo muito interessante, que mostra claramente como as crianças vem sendo manipuladas pela propaganda, tornando-se escravas do consumo, insaciáveis sem dar-se conta.

Gosto muito de um desenho animado que assisti com meus filhos na NET (que já está infestada de anúncios nos canais infantis) que mostrava o lançamento de uma boneca chamada Fiona Gastona. Fiona possuía tantos complementos e apetrechos, que depois de comprar todos, a menina já não encontrava mais a boneca, soterrada sob uma montanha de caixas de todos os tamanhos. Até que se cansou de todo aquele excesso e resolveu se desfazer de tudo, ficando só com a bonequinha.

Isso virou exemplo de consumismo aqui em casa, e sempre que meus filhos começam a pedir para comprar coisas demais, começo a chamá-los de Fiona Gastona e eles acabam rindo e se dão conta da situação.

Outra coisa que faço é assistir às propagandas com eles, e revelar as armadilhas, fazendo-os notar que tudo o que a propaganda quer é que a mamãe gaste muito dinheiro. Quando entra o intervalo, logo mostro: – Ih, olha lá o anúncio dizendo outra vez: COMPRE, COMPRE, COMPRE!

É uma luta árdua, e estou praticamente sozinha. Pai e avós, ainda inconscientes do tamanho da manipulação no mundo capitalista, se deixam levar pelos padrões consumistas implantados pela lavagem cerebral da TV.

Mas é uma luta que vale a pena. E pra quem quiser entender melhor todo o processo do consumismo e como isso afeta o equilíbrio ecológico do planeta, recomendo o vídeo A História das Coisas (The Story of Stuff):

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